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Exposição em Lisboa mostra peças usadas em escravos "dolorosas de se ver"

| País
Porto Canal com Lusa

Lisboa, 21 abr (Lusa) - Instrumentos de aprisionamento de escravos do século XVIII, "dolorosos de se ver", alguns deles nunca mostrados ao público, vão estar reunidos a partir de sábado numa exposição no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa.

A exposição "Um Museu. Tantas Coleções!" faz parte de um projeto maior que envolve 42 instituições de Lisboa que vão apresentar, a partir dessa data, 200 peças e documentos relacionados com a escravatura.

Intitulado "Testemunhos da Escravatura. Memória africana", o projeto é da autoria do Gabinete de Estudos Olisiponenses da Câmara Municipal de Lisboa, num trabalho conjunto com as outras instituições, inserido no âmbito da programação Presente -- Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

O Museu Nacional de Arqueologia (MNA), que participa no projeto, possui, além das coleções de arqueologia, um conjunto muito vasto de outras coleções que contam vários momentos da História de Portugal, e o o tráfico de escravos também está representado.

Em declarações à agência Lusa, a arqueóloga Ana Isabel Santos, conservadora do MNA, comentou que "este projeto foi muito estimulante porque permitiu revisitar coleções de etnografia mais antiga, investigá-las, reclassificá-las e apresentá-las pela primeira vez".

Duas coleiras de escravos do século XVIII, peças muito raras - só existem três no género em Portugal, segundo indicou à agência Lusa o diretor do museu, António Carvalho - vão estar também expostas nesta mostra.

O semanário Expresso tinha noticiado recentemente o desaparecimento destas duas coleiras - que têm inscritos os nomes dos proprietários dos escravos -, e, segundo o diretor, as peças estavam "perdidas" sim, mas dentro da instituição, ou seja, catalogadas de forma errada, e vão ser mostradas ao público pela primeira vez.

Ainda segundo a arqueóloga, esta exposição tem igualmente um lugar de especial destaque para instrumentos de aprisionamento e sujeição de escravos, como algemas e grilhetas muito variadas, "dolorosas de se ver", pelo sofrimento que provocaram em homens, mulheres e crianças, negros e mestiços.

"É um conjunto que vai ser exposto pela primeira vez em tão grande número neste museu. Vai ser, com certeza, central nesta exposição, para testemunhar a realidade da captura e aprisionamento de escravos", sublinhou Ana Isabel Santos.

Na exposição, é possível observar coleiras, algemas e grilhetas para mãos, pés e pescoço, algumas para crianças, em ferro maciço.

Também são mostradas figuras de barro produzidas no Norte de Portugal, nas Olarias de Barcelos, e em Estremoz, no Alentejo, "produções muito populares e que demonstram que ainda em final do século XIX essa memória, de uma população africana que chegou no século XVI, perdurou como parte integrante da população".

São igualmente exibidos braceletes de ferro da coleção de etnografia africana "que foram reclassificadas como manilhas, sistemas pré-monetários que foram os objetos que provavelmente mais serviram como unidade padrão no comércio de escravos".

"Em 1520, um escravo podia custar vinte ou 30 manilhas", apontou a arqueóloga, que é uma das comissárias da exposição.

Por seu turno, António Pinto Ribeiro, comissário-geral da programação Presente -- Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017, questionado pela Lusa sobre a importância do projeto "Testemunhos da Escravatura. Memória africana" no quadro global da programação, sublinhou a necessidade de "olhar para o passado, e dar visibilidade a um período da História de Portugal que tem impacto na atualidade".

"A escravatura existe ainda hoje e é um problema grave. O racismo também é um problema daí derivado, e são necessárias formas de o entender e combater", salientou.

O comissário espera, com este projeto, e outros, do evento, "criar novo conhecimento científico e construir discursos sobre as peças históricas que vai ficar para a posteridade".

Mais de 200 peças e documentos de instituições de Lisboa que testemunham os 400 anos de tráfico de escravos vão ser expostos a partir de sábado no âmbito da programação Presente -- Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

O projeto inclui a criação do 'site' testemunhosdaescravatura.pt, que reúne todas as peças e documentos, e, entre outras exposições, "Prisão para Escravos", no Museu Nacional de Etnologia, e "Um Museu. Tantas Coleções!", no Museu Nacional de Arqueologia.

O ponto de partida do projeto - com curadoria de Anabela Valente e Ana Cristina Leite - foram dois eixos programáticos de Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017 -- afrodescendentes e migrações -, as memórias da escravatura existentes nos equipamentos culturais de Lisboa e o seu tratamento enquanto testemunho dessa realidade.

O tráfico, o combate e abolição da escravatura, as questões económicas, as vivências e os quotidianos do escravo, o racismo, a legislação, tradições culturais e religiosas, e a iconografia do africano vão ser alguns dos temas tratados nas exposições.

O projeto distribui-se por 42 equipamentos, entre arquivos, bibliotecas, museus e outras instituições, incluindo três exposições: "Marquês de Sá da Bandeira: o antiesclavagista", na Academia Militar, "Um Museu. Tantas coleções!", no Museu Nacional de Arqueologia, e "Tráfico, Consciencialização e Combate", na Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico/Junqueira e Jerónimos.

AG // MAG

Lusa/Fim

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