DEAU celebra 20 anos de palcos e 10 de "Livro Aberto" com concerto no Porto

DEAU celebra 20 anos de palcos e 10 de "Livro Aberto" com concerto no Porto
Foto: Arte Sonora
| Porto
Porto Canal/Agências

O ‘rapper’ português DEAU assinala este mês 20 anos de palcos e 10 anos do álbum “Livro Aberto”, com um concerto no Hard Club, no Porto, no qual irá celebrar o passado e desvendar o futuro.

“Estou a preparar algo que demonstre a narrativa do percurso que fiz até aqui, e com aquilo que senti que as pessoas me transmitiam ao longo destes anos”, referiu DEAU, em entrevista à Lusa, sobre o concerto marcado para 13 de dezembro no Hard Club, sala onde há 20 anos pisou pela primeira vez um palco, quando aquele espaço ainda era em Vila Nova de Gaia.

O alinhamento irá percorrer os vários álbuns que editou, e incluirá também participações com outros artistas e as ‘mixtapes’ que gravou.

“Estou a criar uma espécie de narrativa que vai até ao sítio onde me encontro, porque tenho muito orgulho nesse percurso”, disse.

O percurso de DEAU (Daniel Francisco), que nasceu no Porto em 1988, mas vive há vários anos em Vila Nova de Gaia, mais precisamente no Candal, como faz questão de salientar, começou em 2005 nas “Nova Gaia Hip-Hop Sessions”, festas que aconteciam no Hard Club.

Com 14 anos, uns anos antes de subir a um palco, entrou no Hard Club pela primeira vez, ainda aquela sala se situava em Gaia, e disse a si mesmo que “um dia atuaria ali”.

Nessa época ouvia sobretudo Mind Da Gap, Dealema, Berna, nomes maiores do rap do Porto, mas também Sam The Kid e Valete.

As letras de Berna, que relatavam vivências próximas das suas, fizeram DEAU sentir “autorização” para escrever e também validação em relação ao que escrevia.

“Comecei a escrever por gostar do que a música despertava em mim, por gostar de sentir que aquilo que escrevia era importante para os meus amigos e para as pessoas que estavam à minha volta. As reações deles ao que eu escrevia determinavam que continuasse e justificava o que estava a fazer”, partilhou.

Na altura, como não gravava nem produzia o que fazia, “as músicas viviam nos blocos e na memória” dos amigos, para quem as cantava.

“Adorava dar improvisos e isso foi marcando nome na rua. De escola para escola, grupos de amigos, nas festas, foi-se tornando mais comum”, contou.

Numas férias de verão, com 16 anos, criou um coletivo com amigos - Tacto Nato, Auge, Mash, Tostaz e Américo - e foi com eles que subiu pela primeira vez a um palco, em 22 de outubro de 2005.

“Lembro-me de ser muito especial, de ter a sorte de termos muitos amigos à frente. Lembro-me de a casa estar cheia, esgotada”, recordou.

Subir ao palco do Hard Club era o objetivo que tinha naquela altura: “não almejava mais para além disso”.

Esse é um dos momentos que aponta como um dos mais marcantes dos últimos 20 anos. Outro aconteceu em 2008, quando divulgou a primeira música que gravou como DEAU, “Lamento”.

“Nessa altura o Valete reconheceu o meu trabalho. Isso foi um marco enorme para mim. Era quase uma validação de um nome sonante. E mostrou-me que eu posso estar a trabalhar, entre aspas, no ‘cu de judas’ e se calhar o meu ídolo pode estar atento àquilo que estou a fazer”, partilhou.

Depois disso começou a ser convidado para fazer participações em temas de outros ‘rappers’.

Na mesma altura, com Capicua, M7 (que o público hoje conhece como Beatriz Gosta), Jimmy P (que na altura era Supremo G), JêPê (atualmente agente de vários artistas) e João Pequeno (na altura Seada) organizava festas nas quais promoviam os temas de cada um.

O reconhecimento de Valete, que “mudou para sempre” a vida de DEAU, deu-lhe impulso para decidir começar a juntar dinheiro para gravar um disco, algo que só conseguiu fazer “de maneira confortável” em 2012.

O ‘rapper’ contou à Lusa que sempre estudou e trabalhou. Na faculdade, durante o tempo de aulas, trabalhava no Teatro Nacional São João, e nas férias rumava a França, para trabalhar na construção civil.

Com o dinheiro que juntou materializou um sonho, a edição de “Retiessências”.

“As outras músicas que saíram antes, a anunciar esse disco, e as pessoas apelidaram de EP, não é EP nenhum. Só existe porque não tinha dinheiro para fazer um disco duplo. Essas músicas faziam parte do disco, só não cabiam lá”, explicou.

Com o álbum de estreia editado percebeu “que era possível”. “Que mesmo sendo independente, como sempre fui, conseguia fazer as minhas coisas”, afirmou, acrescentando que pagou e continua a pagar todos os seus trabalhos.

O segundo álbum que editou, “Livro Aberto” (2015), a celebrar agora dez anos, tem “um sabor agridoce”.

“Foi uma fase muito difícil, por causa de questões pessoais, mas é um disco que, aos olhos do mercado, foi o que me deu mais sucesso. Também foi um disco que senti que ficou em parte aquém do que eu gostaria que tivesse sido, mas ao mesmo tempo é um disco do qual me orgulho muito, porque tem músicas muito especiais para mim, adoro os videoclips que fizemos com essas músicas”, partilhou.

O terceiro, e mais recente álbum, “Cabeça a Prémio”, chegou em 2021. O sucessor, “De[Au] – De Dor e De Ouro”, já começou a ser divulgado em setembro e assim continuará ao longo do próximo ano.

“O disco vai-se montando faseadamente e terá quatro momentos, cada um com quatro músicas [o primeiro momento aconteceu em setembro]. É um conjunto de músicas que significa uma espécie de metamorfose entre elas, que era também uma temática abordada no ‘Livro Aberto’. Apesar de se chamar ‘Livro Aberto’ há muitos capítulos que não fechei e sinto que estou a fechar agora”, contou.

No álbum, gravado no Algarve, os instrumentais estão a cargo de Sickonce, que é também DJ GIjoe.

A parte gráfica de “De[Au] – De Dor e De Ouro”, que inclui quatro azulejos, que vão sendo divulgados à cadência de um por cada momento, ficou a cargo da ‘designer’ e ilustradora Min, que concebeu a capa de “Livro Aberto”.

“Este disco está fechado para mim. Durante o próximo ano, e se calhar pode alastrar-se mais tempo, estará todo disponível. Mas não sinto que tenha de ser fechado, não estou com essa necessidade. Fiz 20 e tal músicas e há 16 que significam estes quatro momentos”, disse.

O facto de serem quatro momentos não é por acaso: “tem muito significado para mim o 4, porque o código postal de Gaia é 4400. E é um símbolo que defendo desde o primeiro dia”.

Durante dez anos DEAU conseguiu viver exclusivamente da música, mas “a covid destruiu muita coisa”, além disso, era mais novo e, por isso “não tinha tantas responsabilidades”.

Hoje, junta a música ao emprego no departamento de qualidade de uma empresa de vinhos, e ao projeto “Vozes da Inclusão”, promovido pela Matosinhos Habit, “que promove a escrita criativa, que é depois transformada em música e apresentada num espetáculo, com jovens, e não só, que vivem em Matosinhos”.

Para o ‘rapper’ o que “torna caro” ser independente é tornar público o que se faz: “Fazer música vou fazer a vida toda. Isso eu sei. Tanto como sei que enquanto for vivo vou respirar. Enquanto sentir que tenho público, faço isto como sempre fiz, com pés e cabeça e a investir o que tinha e o que não tinha. Quando sentir que já não tenho ouvintes, se calhar aí faço só para mim, e sou feliz na mesma”.

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