Dinis recebe apoio desde os 18 meses de associação dedicada ao autismo no Norte
Porto Canal/Agências
Dinis, 12 meses, apresentava um olhar vazio e não respondia ao chamamento do nome. Vânia, a mãe, obteve o diagnóstico de que o filho tinha autismo seis meses depois. A Associação Portuguesa para Perturbações do Desenvolvimento e Autismo do Norte foi a salvação.
“Acho que uma das principais características é o olhar vazio. O olhar. Nós olhamos e sentimos que o olhar deles está perdido”, recorda Vânia Silva, 43 anos, mãe de Dinis Maria, um menino que hoje tem 6 anos e frequenta o 1.º ano do ensino regular.
Dinis recebeu apoio de uma equipa multidisciplinar e especializada da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo do Norte (APPDA – Norte), com sede em Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto.
A associação, uma Instituição Particular de Solidariedade Social que celebra este mês o seu 41.º aniversário, tem um centro de estudos de apoio à criança e à família, consulta de diagnóstico, centro de intervenção de desenvolvimento, serviço de acompanhamento familiar e formação para pais, professores e auxiliares.
A missão é “promover a qualidade de vida das pessoas com Perturbações do Espetro do Autismo (PEA) de todos os grupos etários e suas famílias" e, atualmente, apoia 110 crianças e adultos com autismo e/ou outras perturbações do desenvolvimento dos concelhos do Porto e de Gaia.
Os sinais de alerta que Vânia começou a reparar no seu bebé foram que não olhava para ela diretamente, nem respondia, quando chamado, pelo seu nome. Chegaram a dizer-lhe, na brincadeira, que o bebé não gostaria do nome escolhido.
Outros dos sinais é o “atraso na fala”.
“É expectável que quando chegam ao primeiro ano de vida comecem a dizer 'olá', 'mamã','papá'. Essas primeiras palavras não saem e começamos a apercebemo-nos dessa diferença”, recorda Vânia Silva.
Há outras crianças com atrasos motores, como “não subir escadas de uma forma correta. Coisas simples como pousar um pé e depois pousar o outro… e depois há os comportamentos muito repetitivos, fixarem pontos. Ficam muito parados a olhar para um determinado ponto”.
Após uma epopeia, que durou meio ano em consultas médicas, chegou o diagnóstico de Dinis.
Vânia tomou conhecimento da existência da APPDA – Norte junto de médicos especialistas e desde os 18 meses que Dinis Maria recebe apoio da APPDA.
A APPDA tem 71 colaboradores, 110 utentes e movimenta 1,5 milhões de euros por ano para funcionar, indica a presidente, Ana Gonçalves, cujo filho David, hoje com 54 anos, foi uma das primeiras crianças a inaugurar as instalações, em 1984.
Atualmente, a lista de espera é de 80 pessoas - entre crianças e adultos -, porque há cada vez mais casos diagnosticados a recorrer aos serviços, contam Vânia Silva e Ana Gonçalves.
A responsável da associação afirma que o aumento do número de pessoas se deve ao facto de as crianças com autismo se transformarem em adultos que, por vezes, ficam “sem retaguarda familiar” ou são deixados ao abandono.
O número de casos também está a aumentar porque o conjunto dos sintomas no espetro do autismo alargou, acrescentou Vânia Silva.
“Há muita gente que transforma o autismo num mundo azul ou num mundo cor-de-rosa, e isso não acontece (…). Temos de ter muito cuidado com a informação e virmos a estas associações, a estes profissionais, porque a APPDA tem o grupo completo [de especialistas] e há um conjunto de serviços, há uma equipa multidisciplinar que faz a avaliação global”, considera a mãe.
O Dinis está na escola pública, mas a luta para ter uma auxiliar com formação sobre autismo e uma professora de ensino especial exigiu um grande trabalho, assume Vânia Silva, recordando que a auxiliar é essencial porque é a “voz do filho” na escola, porque o “Dinis não fala”.
“Seria impossível o Dinis ir para o ensino regular sem a ligação entre APPDA e a escola para “definir estratégias” e fazer a transição da pré-escola para o 1.º ano, acrescenta.
Uma boa auxiliar começa a perceber os gatilhos do autismo e é "fundamental para conhecer a criança, para lhe dar o amor e carinho, e depois para a parte técnica e letiva com uma professora do ensino especial”.
A APPDA – Norte tem uma lista de espera de 80 pessoas para o Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão e para os lares residenciais.
A curto prazo, a luta é para “duas residências térreas em Vila Nova de Gaia” para pessoas com autismo, que a partir dos 40 anos começam a ter mais problemas físicos e motores, adianta a presidente da associação.
