Associação do Porto “cria pontes” entre migrantes e locais
Inês Saldanha
A Associação Meeru, sediada no Porto, tem desenvolvido diversos projetos com migrantes e refugiados, promovendo a sua integração desde os primeiros passos em território nacional até à entrada no mercado de trabalho, passando também pela inclusão cultural e religiosa.
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Ilham Mohib, de 38 anos, é uma das pessoas que encontrou na associação um ponto de viragem. Chegou a Portugal em 2023, vinda de Marrocos, acompanhada pelo marido e pelos dois filhos, de 16 e nove anos. A mudança foi motivada pelo desejo de garantir melhores condições de vida para a família.
“Quando chegámos a Portugal, estávamos à procura de uma associação que ajudasse as famílias e as crianças a integrarem-se e a conhecerem a língua e a cultura portuguesa”, contou Ilham ao Porto Canal, acrescentando que foi assim que conheceu a associação.
Assim, acabou por integrar o programa “Meeru Aproxima”, que, segundo Pedro Santos, presidente da associação, “coloca equipas de voluntários locais a partilharem a vida com famílias migrantes e refugiadas”.
“Muitas destas famílias com quem trabalhamos estão muitas vezes muito isoladas, não conhecem ninguém local. Não têm grandes motivos para sair de casa e nós começámos a tentar arrebentar essa bolha”, explicou o dirigente.
A Meeru nasceu em 2019, fundada por um grupo de pessoas com experiência prévia em voluntariado com comunidades migrantes e refugiadas, tanto em Portugal como no estrangeiro.O nome “Meeru”, inspirado num menino conhecido pelos fundadores, transmitia, segundo Pedro Santos, a “mensagem intercultural e de proximidade” que queriam passar.
Atualmente, a associação dinamiza vários projetos que procuram garantir não só uma integração inicial, mas também um acompanhamento contínuo e próximo.
Entre essas iniciativas destaca-se o “Amal Soap”, um negócio social de produção de sabonetes artesanais feitos por mulheres migrantes e refugiadas, para as preparar para o “salto para o mercado de trabalho”.
“Muita coisa [que fazemos aqui] é comum a outras áreas: gestão de stock, expedição de encomendas, diálogo com clientes em feiras, ou seja, tudo isso são competências que depois servem a outras áreas”, explica Isabel Martins da Silva, vice-presidente da associação.
Ilham é uma das mulheres envolvidas no projeto. Além de colaboradora da Amal Soap, é atualmente mediadora comunitária na organização Médicos do Mundo.
“A Meeru ajudou-me a ganhar confiança e a preparar-me para o mercado de trabalho”, reconheceu a migrante.
Com os olhos postos no futuro, a associação quer criar a “Academia Amal”, financiada pela iniciativa pública Portugal Inovação Social 2030, com o objetivo de capacitar estas mulheres, ao longo de dois meses, com vista à sua integração em empresas parceiras.
“A ponte que será feita não é com empresas aleatórias. A ideia é que, depois de estarem dois meses connosco, sejam colocadas no mercado de trabalho em espaços também eles seguros. Durante estes dois meses, vamos prepará-las para entrevistas de emprego, preparar CVs — tudo isso está englobado”, referiu Isabel Martins da Silva.
Mas a integração não se faz apenas pelo emprego. O diálogo intercultural e inter-religioso é outra das prioridades. Foi nesse contexto que nasceu o projeto Afaq — que significa “horizontes”, em árabe — uma resposta às necessidades sentidas no seio da comunidade.
“Começámos a perceber com a comunidade muçulmana da Meeru, que era algo mesmo importante, até pela ligação às raízes e pelo diálogo saudável entre as várias identidades que as gerações mais novas, que estão a crescer em Portugal, têm — que andam nesta viagem entre ser portugueses e ser sírios, entre ser portugueses e ser marroquinos, e a religião acaba por ser aqui um fio que vai unindo”, explicou Pedro Santos.
A Afaq surgiu da vontade de criar um espaço seguro onde as mulheres muçulmanas pudessem afirmar a sua identidade e desconstruir preconceitos associados à sua fé.
“Acho que elas começaram a perceber que tinham um espaço a ocupar e que era preciso mostrar o rosto feminino do Islão”, considerou Isabel Martins da Silva.
Ilham sublinha a importância do projeto para a comunidade: “Eu acho que o apoio da Meeru para criar esta associação de mulheres é muito importante para falar sobre a nossa religião, fazer um diálogo intercultural, inter-religioso, para corrigir ideias erradas sobre o Islão. E também estamos a pensar em fazer aulas de árabe para guardar a nossa língua original para as crianças que já nasceram aqui ou que vieram pequenas para Portugal.”
Tanto a direção da Meeru como as mulheres envolvidas na Afaq têm como objetivo a criação de uma associação independente, com a inclusão religiosa como um dos pilares fundamentais. Até lá, vão promovendo encontros comunitários, como a celebração do Eid-al-Adha — uma das principais festividades do Islão —, que contou com a presença de pessoas de diferentes religiões.
“A porta está aberta à religião cristã, temos pessoas indianas, da Síria, de Marrocos, Argélia, Tunísia e de diferentes origens. É um exemplo que mostra que podemos viver juntos, conviver juntos, sem problemas, sem barreiras”, apontou Ilham.
