Associação alerta para projetos que “ameaçam integridade” do parque Peneda-Gerês
Porto Canal / Agências
A Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade (FAPAS) alertou esta quarta-feira que o projeto para a cascata do Tahiti e a futura instalação de centrais solares e eólicas “ameaçam a integridade” do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).
Em comunicado, intitulado “Quem quer acabar com o Parque Nacional da Peneda Gerês?”, a FAPAS critica o projeto da Câmara Municipal de Terras de Bouro (CMTB) que prevê a criação de uma estrutura metálica, apoiada em estacas e que servirá de miradouro, e a colocação de gradeamento e de outras intervenções, alegando questões de segurança e o objetivo de melhorar o acesso ao espaço.
“Segundo as montagens 3D divulgadas pela CMTB, o que pretendem fazer é transformar um troço de paisagem natural, das mais valiosas do PNPG, num cenário completamente artificial e com características urbanas. Ou seja, destruir este pedaço do PNPG, na continuação do que já foi feito noutros locais do parque”, acusa a associação ambientalista.
O autarca de Terras de Bouro justifica a obra, já adjudicada por 205 mil euros, com a necessidade de prevenir os acidentes que anualmente ocorrem na Cascata da Barja, conhecida como cascata do Tahiti, e onde a autarquia quer proibir os banhos.
“Quero que a cascata do Tahiti tenha, de facto, um local de visitação, que seja um miradouro de excelência arquitetónica, incluído na paisagem, mas, não consigo, enquanto responsável máximo da proteção civil em Terras de Bouro, conceber que as pessoas vão utilizando a cascata do Tahiti, acabam por ter acidentes, alguns deles, infelizmente, mortais”, afirmou Manuel Tibo (PSD) à agência Lusa, em julho de 2022.
A FAPAS diz que a “Cascata da Barja não oferece maiores perigos que fazer percursos pedestres na restante área do PNPG (ou noutra qualquer área montanhosa), por quem não esteja preparado para a montanha”.
A associação diz que no início do mês visitou o local e “testemunhou dois pequenos acidentes”, assim como “o excesso de visitantes que ultrapassava a capacidade de carga do local, retirando-lhe a amenidade e tranquilidade que se espera encontrar numa área natural”.
“Não será a obra projetada pela CMTB que irá aumentar a segurança nas cascatas. Com sensibilização, educação dos visitantes e vigilância, medidas mais simples e baratas do que as anunciadas, o problema pode resolver-se”, defende a FAPAS.
A associação refere ainda que, “infelizmente, não é este o único problema que, neste momento, ameaça a integridade do PNPG”, dando conta de “outros problemas herdados do anterior secretário de Estado da Energia (2018-2022), João Galamba”.
Em 24 de junho foi posto à discussão pública, até 02 de agosto, o projeto da Central Solar Fotovoltaica Flutuante de Paradela e projeto híbrido associado, com o qual a FAPAS discorda, entendendo que o mesmo “deve ser totalmente rejeitado”.
“Nada justifica a ocupação de uma área protegida, ainda para mais no único Parque Nacional do país (e não poderemos ter outro) e área classificada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera”, sublinha a associação.
Até 21 de agosto está em discussão pública um outro projeto, o da Central Solar Fotovoltaica Flutuante de Salamonde e projeto híbrido associado.
“O nosso único Parque Nacional está a ser continuamente degradado e, a totalmente errada lei da cogestão das áreas protegidas, ‘inventada’ pelo anterior titular da pasta do ambiente, só veio agudizar os problemas. Aguardamos a revogação ou alteração dessa lei (Decreto-Lei nº 116/2019), o reposicionamento dos autarcas no seu lugar apropriado, e a nomeação de diretores das áreas protegidas, tal como prometido no programa do atual governo”, apela a FAPAS.
A associação receia que se estejam a criar as condições para que se perca a denominação de Parque Nacional.
“E, para a história, ficarão os nomes daqueles que, em nome de um falso desenvolvimento, de um lucro imediato e de um crescimento não sustentável, contribuíram para a delapidação do nosso Parque Nacional”, adverte a FAPAS.