De São João da Madeira para Veneza. Coleção Treger Saint Silvestre empresta à Fundação Prada obras de Arte Bruta sobre clima

De São João da Madeira para Veneza. Coleção Treger Saint Silvestre empresta à Fundação Prada obras de Arte Bruta sobre clima
| Norte
Porto Canal / Agências

A Coleção Treger Saint Silvestre, que tem mais de 1.700 obras em depósito no Centro de Arte Oliva, de São João da Madeira, vai emprestar dois quadros de Arte Bruta sobre o clima à Fundação Prada, de Veneza.

Segundo fonte do referido equipamento cultural do distrito de Aveiro, a parceria entre a coleção portuguesa e a instituição italiana visa a inclusão de dois trabalhos do artista checo Zdeněk Košek (1949-2015) na exposição “Everybody talks about the weather / Todos falam sobre o tempo”, a inaugurar no próximo dia 20 de maio no polo veneziano do centro de arte contemporânea da marca Prada.

"A nossa coleção é composta de obras raras e muito importantes, que são conhecidas internacionalmente, e, sempre que possível, emprestamos os trabalhos que nos pedem. Nos últimos anos temos cedido obras a museus um pouco por toda a Europa, nomeadamente em Espanha, Áustria, Alemanha e Holanda, e desta vez vamos colaborar com esta prestigiadíssima fundação italiana, que nos solicitou especificamente os quadros de Košek”, explicou Richard Treger à Lusa.

O interesse no autor deve-se ao facto de esse artista “se ter dedicado ao tema do clima e da meteorologia muito antes de isso ser uma ‘moda’”.

A justificação é de António Saint Silvestre, que realça que, “décadas antes de as alterações climáticas marcarem a agenda política e social mundial, já Košek criava quadros detalhados, cheios de cor, sobre a forma como o tempo influía na vida das populações”.

As obras que agora viajam de São João da Madeira para Veneza foram concebidas em 1990 e 2000, e denunciam o estilo próprio que Zdeněk Košek apurou como autodidata e na sua atividade profissional, marcada pelo trabalho como tipógrafo e pelo desenho de caricaturas e ‘cartoons’ satíricos para a imprensa regional.

Segundo Treger e Saint Silvestre, o artista “também produziu pinturas mais ou menos convencionais”, mas, na década de 1980, sofreu “uma profunda fratura psicológica, que foi gradualmente modificando a sua perceção do mundo”. Acabou diagnosticado como psicótico em 1989 e abandonou o trabalho profissional, mantendo, contudo, a convicção de que “a sua missão na vida era dominar os fenómenos meteorológicos”.

“Convicto de que podia controlar o clima, passava o dia junto à janela, anotando tudo o que acontecia ao seu redor: a direção do vento, o voo dos pássaros, os sons, as mudanças de temperatura, assim como diferentes combinações de números, letras e elementos químicos”, conta Richard Treger.

Nesse registo, o artista servia-se de “cadernos, mapas, atlas ou revistas antigas”, desenhando nesses suportes o que António Saint Silvestre descreve como “diagramas com os quais pretendia influenciar o clima, de acordo com um ritual que achava indispensável para evitar o seu maior receio, que era o caos irreversível”.

Os desenhos finais eram então expostos na janela do seu apartamento, virados para o exterior, numa tentativa de comunicação com os pássaros, que Košek considerava “seres superiores aos humanos”.

A partir do convite dirigido à coleção portuguesa por Cornelia Mattiacci, as obras do artista checo estarão assim patentes ao público até 26 de novembro no palácio do século XVIII que a Fundação Prada ocupa em Veneza, onde a mostra “Everybody talks about the weather”, comissariada por Dieter Roelstraete, vai explorar a semântica do tempo nas artes visuais.

Com mais de 50 trabalhos, a exposição integrará igualmente criações de Sophia Al-Maria, Giorgio Andreotta Kahlo, Shuvinai Ashuna, Ursula Beeman, Fredrik Verslev, Peter Vermeersch, Nina Kanell e Gustav Courbet, entre outros.

Fonte da Fundação Prada afirmou que o objetivo é evidenciar a urgência das mudanças climáticas: “Mais de 50 obras contemporâneas e uma seleção de peças clássicas demonstram as várias formas como o clima e a meteorologia influenciaram a nossa história e como lidámos com os desafios da nossa exposição a eventos meteorológicos”.

“Normalmente, meteorologia e climatologia são duas disciplinas científicas distintas”, admite a Fundação Prada. “Esta exposição, pelo contrário, estabelece uma equação empírica entre esses dois objetos de estudo, aplicando-lhe a lente dual das artes visuais e da ciência”, justifica.

A presente iniciativa dá sequência à exposição “Human Brains: It begins with an idea / Cérebros humanos: Começa com uma ideia”, que esteve patente em Veneza em 2022, e à mostra “Cere anatomiche: La specola di Firenze / Ceras anatómicas: O observatório de Florença”, atualmente em exibição em Milão.

É por essa intenção de “disseminar por uma ampla audiência o resultado da mais recente investigação científica e académica” que “Everybody talks about the weather” incluirá também “estações de pesquisa com mais de 500 livros, publicações científicas, artigos e vídeos, o que permitirá ao público consultar as diversas fontes bibliográficas da extensa pesquisa na base deste projeto” – que será complementado com um programa adicional de três dias em outubro e a publicação de um livro ilustrado.

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