25 Abril: Museu em Pedrógão Grande explica fascismo e luta pela liberdade
Porto Canal / Agências
Pedrógão Grande, 31 mar (Lusa) -- Centenas de peças de várias épocas expostas no Museu da República e da Maçonaria, em Pedrógão Grande, ajudam a compreender a resistência ao fascismo e a Revolução dos Cravos, em 1974.
As coleções "dão a capacidade de entender melhor um 25 de Abril de reconquista das liberdades" perdidas em 1926, com a instauração da ditadura militar.
O republicanismo e a I República, a Maçonaria e o Estado Novo (incluindo a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial) são as principais coleções.
Iniciativa do economista Aires Henriques, o museu inclui peças únicas e raras e pode ser visitado num edifício com características neomedievais, integrado no complexo de turismo rural Villa Isaura.
Nos últimos 35 anos, Aires Henriques perseguiu uma paixão que acabou por lhe ocupar grande parte do tempo, agora que está reformado.
Nas viagens pelo país, como funcionário do ministério da Agricultura, foi comprando objetos, utensílios, artesanato, obras de arte, livros, desenhos e outros documentos "com algum interesse museológico".
A maioria são peças nacionais, "que têm a ver com a nossa história, com a nossa vida e com o nosso passado", afirma à agência Lusa.
"Este repositório permite compreender o 25 de Abril que vamos celebrar agora", acrescenta Aires Henriques, enquanto exibe, em diferentes posições, uma pequena escultura da autoria do ceramista Vasco Lopes de Mendonça.
Trata-se da obra "O artista e a rolha", peça única, que o filho de Henrique Lopes de Mendonça (autor da letra de "A Portuguesa", que a I República adotou como Hino Nacional) ofereceu ao amigo Francisco Valença, caricaturista do jornal satírico "Sempre Fixe".
Vasco Lopes de Mendonça "é uma figura que atravessa todo o Estado Novo, com todas as restrições, falta de liberdade e atropelos" da ditadura.
"É uma peça de cariz particular, oferta de amigo para amigo", produzida antes de 1963, "onde está bem expresso o sentido crítico" do seu criador, refere Aires Henriques.
Moldando o barro das Caldas da Rainha, o sobrinho do Bordalo Pinheiro representou o amigo Valença, "com umas asas e uma grilheta que o amarra à rolha da censura".
O caricaturista "agarra-se desesperadamente ao seu pincel para que consiga levantar voo, mas é impossível", explica.
Num desenho de Francisco Valença, provavelmente de finais dos anos 20 do século passado, surge Salazar montado num cavalo, envergando a armadura de São Jorge, a tentar matar um dragão chamado "Comunismo".
Noutra obra das Caldas, Vasco de Mendonça caricatura o fascista italiano Mussolini, "com ar de fanfarrão", sendo visível uma ferida na cabeça que algum adversário lhe terá causado.
Já com a II Guerra a favor dos Aliados, Hitler "afoga-se no seu próprio sangue", tentando agarrar-se a uma boia, e pede socorro em Inglês: "Help me!". Esta peça de barro faz parelha com outra, cuja autoria é atribuída igualmente a Mendonça.
Aqui, o líder da Alemanha nazi está também a morrer, "enforcado e com a língua de fora", segundo Aires Henriques, que vai mostrando com minúcia os detalhes da peça.
O museu de Troviscais acolhe raridades de diferentes épocas, incluindo pratos com propaganda nazi feitos em Portugal.
"Recolhi aquilo que faz parte da história, independentemente de concordar com ela ou discordar", justifica.
Um documento de 1939, emitido por uma junta de freguesia de Lisboa, passa praticamente despercebido.
"É talvez a peça mais barata que cá está, mas porventura das mais expressivas", salienta Aires Henriques.
Expressão "das dificuldades das gentes desse tempo", o cartão atesta o grau de indigência de uma idosa.
"Pobre", simplesmente.
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