Trabalhadores da Câmara do Porto aprendem a picar a calçada para que a “arte não se perca”
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Catarina Cunha
Câmara do Porto inaugurou Escola de Calcetaria para que “a arte” de picar pedra “não se perca”. Os alunos são trabalhadores municipais que se cruzam com os mestres em busca de um saber com séculos de existência. Em conjunto, lutam pela requalificação da profissão de calceteiro.
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“Uma pedra mal colocada pode causar um desastre”. O aviso sincero é de Hugo Magalhães, um dos formandos da Escola de Calcetaria. A experiência no ofício é recente, mas a vontade em aprofundar o conhecimento é antiga. “Trabalho aqui há três meses e 15 dias. É um ramo novo e muito diferente daquilo que já fiz. Mas estou aqui porque sempre gostei de conhecer a parte da construção (...) perceber como tudo é feito”, conta em declarações ao Porto Canal, enquanto carrega material para o carrinho-de-mão sobre o olhar atento do colega Adriano Silva com anos de experiência na área.
Numa tarde em que o sol escapou por entre as nuvens, o calceteiro reveste com centenas de pedras de granito e basalto (oriundo de Leiria) o pavimento do número 912 da Rua de Entreparedes, no habitual alvoroço da Baixa do Porto. Três das dezenas de funcionários municipais acompanham-no de joelhos no chã. Juntos, reconstroem pedra sobre pedra a entrada do Hotel Catalonia “que estava totalmente destruída”. O som é ensurdecedor e ecoa no ar, o que atrai os olhares de alguns portuenses que param para apreciar aquela arte, já outros desviam-se, simplesmente, do passeio e seguem destino. “No fundo, retiramos o velho e colocamos o novo”, simplifica Hugo, explicando que a obra pode demorar até três dias, consoante o número de recursos empregues. Entre cacetadas no chão, as conversas sérias são trocadas pelos temas corriqueiros acompanhados por uma ou outra gargalhada.
Profissão pouco atrativa
A diminuição de colaboradores especializados, bem como o desgaste físico são as principais ameaças do cargo. Dificuldades reconhecidas por Adriano Silva que veste a pele de calceteiro há 30 anos, emprego que escolheu por segurança. Hoje, é com um orgulho notório que aceita a passagem de testemunho.
“Este trabalho é muito minucioso e manual, requer anos de experiências e dedicação. A posição é sempre a mesma e no fim do dia as costas e os joelhos ressentem-se. É lógico que os anos não perdoam. Depois, trabalhamos ao sol e à chuva. Por isso, é que não é muito atrativo”, comenta ainda de machada na mão.
No seguimento, enaltece a importância da partilha de sabedoria com os mais novos, de forma a evitar “que daqui a meia dúzia de anos não haja gente para fazer este tipo de trabalho”. A escolha do material a utilizar em cada empreitada também tem que se lhe diga. “Por exemplo, o calcário e o basalto são pedras mais fáceis para fazer ornamentações. Partem-se e moldam-se mais facilmente, ao contrário do micro-cubo”, continua o técnico. Apesar das adversidades transmitidas, afirma que “toda a gente pode ser calceteiro”, “só tem que ter vontade para aprender”.
300 horas de formação
A Escola de Calcetaria, inaugurada pelo município do Porto em novembro, pretende capacitar 35 trabalhadores municipais. Estes, ao longo de 300 horas de formação, irão desenvolver aptidões técnicas e operacionais na área em módulos de integração, desenvolvimento comportamental, segurança, saúde e enquadramento jurídico.
“São trabalhadores da Câmara Municipal do Porto que estão nesta escola e que pode ser frequentada por todos os nossos trabalhadores, com funções nesta área. O investimento é na customização deste percurso formativo ”, informa a vereadora dos Recursos Humanos, Catarina Araújo, em conversa aos jornalistas. E prossegue: “Os formadores são internos e os destinatários os nossos trabalhadores”.
A instituição também nasce para preservar a história da arte da calçada portuguesa, “que caracteriza muito a paisagem urbana da cidade do Porto”, explica o vereador Pedro Baganha. O responsável pela pasta do Urbanismo e do Espaço Público da autarquia portuense afirma tratar-se de “um trabalho em contínuo”, que tanto é utilizado “na construção de novos passeios”, como na “recuperação de pavimentos” existentes.
Olho clínico para os erros na calçada
Em lazer, durante os passeios ou caminhadas, Hugo e Adriano dizem ter um olhar redobrado aos passeios das ruas estreitas da Invicta que só é desviado até se certificarem que não existem pedrinhas acastanhadas e pretas levantadas no caminho. Há quem lhe chame perfeccionismo e outros “fixação”.
No final do turno, limpam a ‘lavoura’, guarda-se o material e despe-se a farda. No dia seguinte, segue-se para um outro destino com o mesmo objetivo: partir e empedrar a calçada, de forma correta. “O ditado é velho, quem trabalha por gosto não cansa, mas aqui cansa sempre”, atira Adriano entre risos.