Antiga livreira da Poetria lança livro sobre "a mais bela profissão do mundo"

Antiga livreira da Poetria lança livro sobre "a mais bela profissão do mundo"
| Norte
Porto Canal / Agências

A fundadora da livraria Poetria, no Porto, Dina Ferreira vai apresentar, no domingo, o livro “A mais bela profissão do mundo”, sobre os dias de uma livreira que vivia quase sempre em asfixia económica.

Em entrevista à Lusa a propósito do lançamento do seu primeiro livro, que acontece às 17:00 na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto, Dina Ferreira, ou “Dina da Poetria”, como também é conhecida, disse que nunca pensou escrever um livro e que foram amigos que a desafiaram a reunir os textos que foi publicando ao longo dos anos nas redes sociais.

“A mais bela profissão do mundo” só existe porque “existe a livraria Poetria”, confessou a antiga livreira, hoje reformada, mas sempre com o hábito da escrita diária.

O livro, editado pela própria Poetria e com cerca de 200 páginas, aparece poucos anos depois de ter entregado o seu legado aos “dois guardiões”, aos “dois anjos” – Nuno e Francisco –, como gosta de os classificar, que tomaram conta da livraria Poetria, com o espírito de “curadores”. Assim, o problema de “fechar a livraria” e “morrer na praia” desapareceu.

O nome do livro foi inspirado no filme “Você tem uma mensagem” (1998), com a atriz norte-americana Meg Ryan a interpretar uma personagem cuja profissão é livreira.

“Meg Ryan que é uma livreira e que passa um bocadinho pela mesma odisseia que eu passei. Lembro-me de ela falar nisso, de ser a mais bela profissão do mundo, e eu também acho. Um livreiro é quase como um jornalista. Tem de abarcar um conjunto de conhecimento, de competências, de sentimentos e de sensibilidades, e de áreas [...], para poder dialogar com os seus clientes que vêm buscar livros”.

No livro, a autora descreve momentos como aquele que sentiu em 14 janeiro de 2017, quando se sentia afligida pela desarrumação na Poetria.

“Quando os dias são vazios de acontecimentos e vendas não me apetece fazer nada, só deixar correr o tempo. Nestas alturas acode-me ao pensamento uma pergunta absurda e até estúpida: Mas o que é que a Lello tem que a Poetria não tem, para venderem entre 750 e 1.000 livros por dia como disse na TV um dos seus responsáveis e na Poetria é esta miséria? (eu disse que era uma pergunta absurda e até estúpida, lembram-se?)”, escreveu, na altura, a livreira.

Noutros momentos, Dina Ferreira destaca a alegria de vender um livro logo às 10:45.

“Minha gente, hoje segunda feira às 10:45 já vendi um livro: ‘Frutos e apontamentos’, do sublime Rainer Maria Rilke, a um jovem uma vez mais. Fantástico, pela venda e pelo destinatário do maravilhoso livro, enquanto ouvia a ‘Matilde’, do Jacques Brel”, escreveu.

Na primeira parte do livro, a escritora discorre sobre o seu dia-a-dia como livreira, desde as tormentas para encontrar o livro que o cliente quer, pagar contas, falar com clientes e leitores. Ao mesmo tempo, Dina Ferreira aborda os títulos de livros de poesia e de teatro que eram vendidos.

“Eu ia registando de forma completamente real. Não há ficção nenhuma neste livro. São mesmo relatos colados à realidade. Nunca ponho o nome completo […], relatava o encontro, a conversa, o livro. Uma coisa importante que há nessa primeira parte é a quantidade de títulos de livros e autores que estão ali. Até pode ser um guia para alguma pessoa”.

Na conversa com a Lusa, Dina Ferreira sublinhou o dever de um livreiro: “Numa livraria como esta, o livreiro não pode tentar vender gato por lebre. Tem de ter ética e saber que se está a falar com a pessoa e a ver o perfil da pessoa”.

Por vezes, as pessoas queriam começar a ler poesia, mas pelo que conhecia do cliente não lhe passaria pela cabeça recomendar um Herberto Hélder ou um autor mais “complexo” e “denso”, “porque via que a pessoa ainda não estava preparada para isso”. Havia, todavia, a necessidade de aconselhar para um “bom poeta” para começar “bem a ler poesia”.

A antiga livreira da Poetria confessou que ter trabalhado naquela livraria foi um “período muito importante da sua vida”.

“Valeu muito a pena, até pela quantidade de pessoas que angariei como amigos. Alguns mesmo amigos. Foi um período muito importante da minha vida e que me vai marcar para toda a vida”.

Na segunda parte do livro, intitulada “Os dias de uma ex livreira à solta”, Dina Ferreira apresenta outra vida: A vida depois de se reformar, que começou no dia 1 de janeiro de 2018.

“Comecei a ter mais tempo. Comecei a andar por aí, e comecei a ter algumas experiências, encontros, observações de certos factos na cidade. Tirava sempre uns apontamentozitos. Tinha sempre um bloco. Punha lá uns tópicos para não me esquecer e, depois, chegava a casa e escrevia um texto”, disse.

Numa dessas deambulações subiu as escadas que davam acesso a um antigo cinema, integrado no então Central Shopping, no Campo 24 de Agosto, "muito perto do local onde a transexual Gisberta foi barbaramente assassinada por um grupo de jovens delinquentes", lê-se na obra.

O livro mostra também os passeios por ruas como a de Fernandes Tomás ou do Bonjardim, onde a autora aprecia “os gloriosos antros do bom bacalhau, enchidos e queijos”.

Há também uma incursão pela Rua do Heroísmo, onde “ficava a PIDE” e por tantas outras ruas do Porto, em que Dina Ferreira tece reflexões históricas e descrições realistas.

A música fazia parte do dia a dia da livreira e não é raro ler referências aos artistas como Edith Piaf, Pink Floyd ou Jacques Brel.

“Porque a música tem muito a ver com a poesia. Acho que era Óscar Lopes que dizia que a poesia é uma espécie de música”.

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