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"D. Quixote" de Cervantes marca o nascimento do romance europeu - Mega Ferreira

| País
Porto Canal com Lusa

Lisboa, 12 fev (Lusa) -- O escritor António Mega Ferreira, autor de "O Essencial sobre Dom Quixote", aponta a edição da "Segunda parte del Ingenioso Cavallero Don Quixote de la Mancha", de Miguel Cervantes, em 1615, como o nascimento do romance europeu.

Com a edição da "Segunda parte del Ingenioso Cavallero Don Quixote de la Mancha", de Miguel de Cervantes Saavedra, "ficava completa a obra monumental que mais havia de marcar a literatura do ocidente europeu, nos séculos seguintes", atesta Mega Ferreira.

Cervantes escreveu a segunda parte, respondendo "a uma pressão da procura" por parte dos leitores, dado "o sucesso sem precedentes" da primeira, publicada em 1605, amplamente difundida e traduzida em vários países europeus, designadamente Portugal, onde se conhecem duas edições piratas da época.

Todavia, realça Mega Ferreira, o "interesse fundamental" de Cervantes em escrever esta segunda parte, foi "constituir uma resposta a um aproveitamento oportunista do sucesso da primeira, de que beneficiara um tal Alonso Fernández de Avellaneda, certamente um pseudónimo, que fizera publicar em Tarragona [sul de Espanha], em 1614, uma continuação das façanhas do cavaleiro criado por Cervantes".

"Essa 'falsa' parte era acintosa para Cervantes, muito crítica da obra publicada em 1605, e fortemente apoucadora da grandeza da personagem então criada", escreve Mega Ferreira.

"Cervantes não gostou do que leu nessa versão apócrifa; e, segundo ele conta, D. Quixote também não. Vai daí, o empreendedor fidalgo lançou-se de novo à estrada, para dar aos eu autor matéria para escrever a segunda parte".

Mega Ferreira qualifica este pretexto como "elegante e retintamente literário, pelo menos no sentido em que entendemos modernamente a palavra literatura: fazer figurar, numa outra obra de ficção, a contestação ficcional de uma outra obra de ficção, através de uma narrativa 'autêntica', é um barroco por excelência".

Se a primeira parte é "muito divertida e estimulante", é a segunda que "eleva o seu alcance e estabelece o modelo".

"O romance europeu nasce aqui, em 1615", remata Mega Ferreira.

A obra "O Essencial sobre Dom Quixote", de Mega Ferreira, é apresentada pelo escritor Miguel Viqueira, na próxima terça-feira, às 18:00, na biblioteca da Imprensa Nacional, em Lisboa, ao Príncipe Real.

Quanto à personagem D. Quixote, "dura há quatro séculos". "Ao Cavaleiro da Triste Figura não o consumiu o tempo nem o deitou para trás das costas a memória dos homens", o que, para Mega, "é um bom sinal", pois afinal "o Engenhoso Fidalgo continua a ser um horizonte de projeção, ou, ao menos, de encantamento de todos nós".

Esta obra, editada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em formato de bolso (10X16,5 centímetros), tem por base os textos de António Mega Ferreira, publicados em 2006, pela editora Assírio & Alvim, em "Por D. Quixote, o justiceiro e o amoroso".

António Mega Ferreira, que atualmente lidera o projeto Metropolitana, editou no ano passado "Hotel Locarno", contando mais de 30 obras editadas, entre ficção, ensaio e biografia.

Miguel de Cervantes nasceu numa seio de uma família da pequena nobreza espanhola, foi militar, participou na batalha de Lepanto, em outubro de 1571, onde perdeu o braço esquerdo. Esta batalha é recorrentemente referida pelo escritor, ao longo do romance do Cavaleiro da Triste Figura.

Preso por piratas, cobrador de impostos, excomungado pela igreja católica, a quem pretendia cobrar os mesmos impostos que eram cobrados ao povo, Cervantes escreveu o primeiro romance "A Galateia" em 1585.

O manuscrito da primeira parte de "D. Quixote" foi entregue em finais de 1604 e conheceu um enorme sucesso em Espanha e na Europa, com várias traduções.

Escreveu outras obras literárias, nomeadamente "Novelas exemplares" (1613), o poema "Viaje del Parnasso", no ano seguinte, e "Ocho comedias y ocho entremezes", em 1615, quando publicou a segunda parte de "D. Quixote".

A título póstumo foi publicado "Los trabajos de Persiles y Sigismundo", que tinha deixado pronto antes de morrer, em 1618, aos 69 anos.

NL // MAG

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