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Moçambique/Ataques: Ernesto entre os milhares que fogem do terror

| Mundo
Porto Canal com Lusa

Pemba, Moçambique, 06 jun 2020 (Lusa) - Ernesto tem 18 anos e diz que foge de uma "guerra", em Cabo Delgado, norte de Moçambique, em que a sua aldeia perto de Muidumbe foi atacada.

Homens armados "queimaram casas, mataram pessoas" em toda a região, fazendo com que uma nova leva de gente rumasse a sul, atravessando a fronteira provincial e instalando-se em Namialo, na província de Nampula.

Há dois anos e meio que a violência armada cresce e de cada vez que há um pico cria-se uma maré de deslocados, pessoas que procuram uma ligação familiar, mesmo que débil, um amigo, alguém que ajude noutras paragens, mais seguras.

Desde há um ano, algumas incursões têm sido reivindicadas pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, com vídeos a apelar ao extremismo, num cenário que já virou a vida do avesso a cerca de 211.000 pessoas, obrigadas a fugir das suas casas e hortas - essenciais para não passarem fome -, calculando-se que tenham morrido, pelo menos, 600 pessoas.

Cerca de metade dos 30 milhões de habitantes de Moçambique tem menos de 18 anos, a idade de Ernesto, um sinal do perfil dos deslocados: muitos são jovens e crianças, privadas de escola, segurança alimentar, alojamento e paz.

As Nações Unidas estimam que desde o início da violência já tenham sido atingidas 107 escolas (incluindo um centro de treino de professores), afetando mais de 56.000 crianças e quase 1.100 professores.

Ernesto pensa em voltar à sua aldeia, mas "não agora", porque o medo permanece. Em Namialo, um outro grupo afasta-se depois de confundir um tripé de uma câmara com uma arma. Não falam até o líder comunitário averiguar melhor quem os procura e até traduzir as intenções de português para as línguas locais.

Minga Duda sublinha a gravidade: "há guerra de verdade". Fugiu de Miangalewa, onde "matam homens e levam as mulheres", raptadas, um relato recorrente por entre as histórias de quem sobreviveu em zonas atacadas.

No mesmo grupo, Mualiba Matuta, refugiado de Muidumbe, lamenta que os corpos nem sequer cheguem às campas. "Ficam dessa forma", abandonados e esquartejados, "em pedaços, tipo galinha".

À chegada, receberam alguma ajuda alimentar. O secretário de Estado da província de Nampula, Mety Gondola, aponta como prioridade "assegurar que possam ter alimentação e condições básicas". Não é suficiente, "mas já dá algum alento".

Em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado e a cidade com mais deslocados, Fifa Falume, 26 anos, recorda o momento em que a guerra lhe bateu à porta, na madrugada de 23 de março, em Mocímboa da Praia. Ela e a sobrinha despertaram a meio da madrugada apavoradas com o que pareciam foguetes, seguidos de tiros e bombas, tudo a irromper pela vila onde tinha havido a primeira ação armada, em outubro de 2017.

"Era como nos filmes, foi tudo terrível", diz Fifa.

Eurico Manuel, 47 anos, casado, pai de 13 filhos, avô com cinco netos, estava lá na mesma noite, em que os invasores "disparavam de qualquer maneira: todos ficámos assustados e fugimos para o mato, com as crianças, onde ficámos dois dias escondidos nas mandioqueiras".

Eurico diz que demorou um dia inteiro a chegar a Pemba, Fifa teve menos sorte, levou quatro dias num barco com outros deslocados e em que pensava que ia morrer ao longo de 300 quilómetros de costa.

Miguel Momade, camponês de 55 anos, tem vivido desde o início do ano a fugir dos "malfeitores" e "insurgentes" com a mulher, sete filhos e dez netos.

Após um ataque em Mussomero, estiveram dois meses e meio a viver no mato, depois fugiram para Quissanga, onde perderam o pouco que tinham num ataque a 15 de abril, rumando então para Pemba. "Quando vi tudo aquilo queimado, não voltei mais".

Miguel Momade partilha hoje um casebre no bairro de Paquitequete, em Pemba, com 24 pessoas. "Desde que cheguei ainda não recebemos nada de alimentação, só houve uma inscrição. Todos os dias há inscrições, mas não estamos a ver o resultado".

Quando chegou, usou o dinheiro que tinha para "comprar dois sacos de arroz e um saco de farinha", algo que "não chega para saciar, mas minimiza o problema da fome".

Sujai Amir vive num dos bairros que acolhe deslocados, erguido na terra batida onde pontificam as casas precárias: "Eu recebi oito pessoas e vêm todos da minha terra natal, Mocímboa da Praia".

Compraram um saco de arroz "que dura uma semana", porque quando há ajuda "vai direto para os chefes", relata, numa queixa recorrente de desvio de apoios, mas sem que se conheçam consequências.

As autoridades moçambicanas estão a tentar criar espaços de reassentamento para deslocados, explica Valige Tauabo, governador de Cabo Delgado, dando o exemplo do vizinho distrito de Metuge, onde "há terra parcelada e outras condições para acolher algumas famílias".

Apesar das queixas, o Programa Alimentar Mundial (PAM) refere que nas primeiras três semanas de maio já tinha prestado assistência a 66.650 pessoas e esperava chegar a outras 30.000 até final do mês nos distritos de Montepuez, Ancuabe, Chiure, Macomia, Ibo, Metuge e Pemba.

Ao mesmo tempo, o Comité Internacional da Cruz Vermelha entregou 'kits' de utensílios domésticos e a Organização Internacional das Migrações (OIM) está a fazer um levantamento das necessidades habitacionais.

As Nações Unidas estimam que entre deslocados e comunidades de acolhimento existam 712.000 pessoas a necessitar de ajuda em Cabo Delgado e lançaram um apelo na quinta-feira aos parceiros internacionais para um plano de apoio rápido de 30 milhões de euros.

Tudo acontece ao lado do maior investimento privado em África, a construção de um complexo industrial para extração e processamento de gás natural, em Afungi, que deverá entrar em produção em 2022, liderado pela petrolífera francesa Total.

Já houve trabalhadores apanhados em fogo cruzado na região, mas o recinto nunca foi alvo de ataques.

O gás, as pedras preciosas, a madeira e a fauna selvagem fazem de Cabo Delgado uma província rica em recursos, numa área pouco menor que Portugal, onde vivem apenas 2,3 milhões de pessoas, que têm uma única estrada asfaltada de norte a sul e infraestruturas em poucas povoações. 

Os ataques de grupos armados começaram nas aldeias remotas, mas, aos poucos, aproximaram-se do asfalto, das redes de energia e telecomunicações e nunca foram tão violentos como este ano. 

Mocímboa da Praia, Muidumbe, Quissanga e Macomia foram sedes de distrito ocupadas durante dias, destruídas e saqueadas até final de maio.

No mesmo período aconteceu uma das ações mais mortíferas, o massacre de Xitaxi, em que 52 moradores foram abatidos num dia. 

Do lado moçambicano, as forças armadas anunciam número igualmente sangrentos: só no último dia de maio, o ministro da Defesa disse terem sido abatidos 78 membros, entre os quais, dois cabecilhas tanzanianos.

Por isso, Ernesto não olha para trás e prefere a miséria segura de um bairro de deslocados ao risco de morrer na sua terra.

LFO // PJA

Lusa/fim

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