Info

Mercado da Feira vai manter opções do arquiteto Fernando Távora que ditadura criticou

| País
Porto Canal com Lusa

Santa Maria da Feira, Aveiro, 14 nov 2019 (Lusa) - José Bernardo Távora, autor da requalificação anunciada para o mercado de Santa Maria da Feira, disse hoje que será leal ao projeto de Fernando Távora (1923-2005), preservando materiais pelos quais o ditador Oliveira Salazar o criticara nos anos 1950.

Bernardo Távora é filho do arquiteto que desenhou o mercado municipal desta autarquia do distrito de Aveiro e, numa visita ao espaço inaugurado em 1959, disse à Lusa que não pretende deixar marcas suas no imóvel.

Propondo-se respeitar integralmente "a visão original" do pai nas obras destinadas a reabilitar os aspetos mais degradados do imóvel e a conferir-lhe as condições técnicas atualmente exigidas às suas funções comerciais, o autor do presente projeto de arquitetura justifica esse cuidado com a mesma teoria que levou o pai a ser criticado por António Oliveira Salazar (1889-1970), o presidente do governo da ditadura do Estado Novo.

É o próprio José Bernardo Távora que conta a história, começando por referir que, nos anos de 1950, o pai era o responsável pela equipa de profissionais que, na região do Minho, procedia ao levantamento sistemático dos dados a incluir no "Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal".

Quando, a certa altura, se proporcionou um encontro entre Távora (Pai) e Salazar, o ex-governante terá manifestado o seu apreço e entusiasmo pela pedra enquanto matéria-prima construtiva, ao que o arquiteto - por essa altura nos seus 30 anos - contrapôs com cautela: "Mas olhe que o betão, bem trabalhado, também pode ser bonito".

Salazar terá então dado uma palmadinha nas costas de Távora, dizendo-lhe com um meneio de cabeça, já a rematar a conversa e a afastar-se: "Tão novo e já pervertido?".

José Bernardo Távora ri-se com a história e expressa então a mesma opinião do pai, identificando no mercado da Feira uma viga de betão que, martelada a toques de bujarda para replicar uma textura idêntica à do granito, se mantém com aspeto praticamente inalterado há 60 anos.

"Os materiais que o meu pai escolheu fazem a diferença toda, e é por eles serem bons que o mercado continua com tão bom aspeto", explica à Lusa.

O arquiteto pretende proceder a algumas operações de limpeza em paredes mais expostas do edifício, mas as intervenções predominantes serão a recuperação dos pavimentos, a melhoria do sistema de drenagem de águas, a criação de acessibilidades e sanitários para cidadãos com restrições de mobilidade, a substituição de luminárias e sistema elétrico, o desenvolvimento de novas condições técnicas para lojistas e vendedores, e o restauro de mosaicos decorativos, assinados por autores como Siza Viera e Fernando Lanhas (1923-2012).

"O meu pai tinha um carinho especial por esta obra, que também é a minha favorita. Foi criada quando a arquitetura modernista se estava a impor lá fora e foi um trabalho de luta, com base num conceito muito simples: um quadrado de 50 por 50 [metros] dividido em quatro secções, uma para cada categoria de produtos", explica - realçando ainda "toda a moldura da paisagem em volta do edifício", com vista para o Castelo da Feira e para a Mata das Guimbras, junto ao rio Cáster.

O projeto de arquitetura de José Bernardo Távora para o Mercado Municipal da Feira deverá ficar concluído no final do primeiro trimestre de 2020, após o que será sujeito a revisão externa e a concurso público para adjudicação da respetiva empreitada. A Câmara Municipal espera que a obra arranque efetivamente no início de 2021, sendo que o seu prazo de execução será depois na ordem dos seis meses.

AYC // MAG

Lusa/Fim

+ notícias: País

Santa Maria da Feira volta a receber a magia do natal com o parque Perlim

A magia do Perlim chegou para mais um natal e trouxe até Santa Maria da Feira famílias portuguesas e espanholas. Esta edição do maior parque temático de natal do país vai estar aberto até ao início do próximo ano.

Autarcas de Tondela acusados de peculato e falsificação de documento

O presidente da Câmara de Tondela, José António Jesus, e o seu vice-presidente, Pedro Adão, foram acusados pelo Ministério Público (MP) dos crimes de peculato e falsificação de documento, que terão ocorrido entre 2010 a 2017.

Metade dos hospitais EPE em falência técnica no ano passado

Metade dos hospitais EPE estavam no ano passado em falência técnica, segundo uma análise do Conselho das Finanças Públicas hoje divulgada.

Atenção: este é um espaço público e moderado. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.