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"Páginas Esquecidas" resgatam textos de Agostinho da Silva por que foi preso em 1943

| País
Porto Canal com Lusa

Lisboa, 11 fev (Lusa) -- O livro "Páginas Esquecidas", de Agostinho da Silva, que é apresentado na quarta-feira, resgata textos que o autor publicou entre 1939 e 1944, de caráter pedagógico, e que o levaram a ser preso pela polícia política da ditadura, em 1943.

"Os textos aqui reunidos são os que deram a conhecer Agostinho da Silva aos portugueses naquela época, e os que o levaram a ser preso no Aljube [em Lisboa], em junho de 1943, pela polícia política [PIDE], e [por que] ele se autoexila, no Brasil, um ano depois", afirmou à agência Lusa o investigador António Cândido Franco, que vai apresentar a obra.

"Aquilo que está presente neste livro diz respeito a um período relativamente curto da vida de Agostinho da Silva, de 1939 a 1944, que foi, todavia, crucial na vida dele, e é o momento em que vai de Portugal para o Brasil, em 1944", prosseguiu.

A obra é apresentada na quarta-feira - data que assinala o aniversário de nascimento do autor -, às 18:30, no El Corte Inglés, em Lisboa, por António Cândido Franco, e a sessão conta com a participação do catedrático jubilado Adriano Moreira.

Sobre os textos, agora publicados, António Cândido Franco afirmou que "se pode dizer que são semi-inéditos, pois tinham sido apenas publicados em folheto, que na altura foi muito popular, mas que não teve reedições".

"Não são [textos] políticos ou de grande perigo social, nada disso", disse à Lusa. "São [textos] banais, são sobre o cristianismo, o sol, a lua, Beethoven, van Gogh, ou escritores como Dostoievski".

"Aparentemente são textos muitos banais, mas representavam um tipo de pedagogia, que se manifestou perigosa para um tipo de regime que, evidentemente, não estava disposto, a aceitar que o ensino se fizesse fora do âmbito que ele controlava e dominava. É pois um caso muito curioso de alguém que é preso por escrever textos sobre van Gogh ou Beethoven", afirmou o investigador.

Os textos de "Páginas Esqueciads" não sendo inéditos, "são uma matéria muito nova", pois estiveram "esquecidos" durante 80 anos, realçou à Lusa o investigador António Cândido Franco, do Instituto de História Contemporânea, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A obra, com fixação de texto, seleção, introdução e notas da investigadora Helena Briosa e Mota, recupera um conjunto de publicações editadas, "Os Cadernos", de Agostinho da Silva, que ficaram por reeditar, apesar das muitas outras reedições e edições que houve do autor, incluindo "uma obra próxima daquilo que se chama 'Obra Completa', mas estes textos nunca foram integrados", disse à Lusa o investigador da Universidade Nova.

António Cândido Franco realçou o trabalho de investigação e estudo de Helena Briosa e Mota, da Universidade de Trás-os-Montes, que qualificou como "muito meticuloso e rigoroso, e ao mesmo tempo apaixonado, de grande dedicação, um bom exemplo de como editar Agostinho da Silva".

"Um excelente contributo" para um melhor conhecimento da sua obra, defendeu.

António Cândido Franco, autor de uma biografia de Agostinho da Silva, "O Estranhíssimo Colosso" (2015), reconhece que o filósofo está um pouco arredado do público em geral, num tempo "em que aquilo que se lê são coisas muito imediatas", e questiona, "quem terá lido uma linha ou um sermão do padre António Vieira?".

"Vivemos uma época e uma sociedade que não ajudam a que pessoas da craveira, da qualidade, da profundidade e da reflexão de um Agostinho da Silva possam passar por ser populares, o que não quer dizer que, ainda hoje, a maioria das pessoas não tenha consciência que de facto, quando se fala de Agostinho da Silva, falamos de um pilar da cultura portuguesa", disse.

NL // MAG

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