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Pedrógão Grande: Familiares em luto devem antecipar e preparar o dia para recordar as vítimas

| País
Porto Canal com Lusa

Pedrógão Grande, Leiria, 14 jun (Lusa) - Os familiares das vítimas devem antecipar e preparar o dia 17 de junho, domingo, para recordar os entes queridos, defende uma especialista do INEM, considerando que a comunidade tem de estar também atenta a possíveis sinais de luto complicado.

"Há momentos especiais que são particularmente vividos e lembrados por parte das pessoas que enfrentam o processo de luto, como as datas de nascimento, o natal" ou a data em que o familiar faleceu, notou a coordenadora do Centro de Apoio Psicológico e de Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM, Sónia Cunha.

Para esses momentos, a psicóloga aconselha que sejam "preparados, antecipados, para as pessoas se permitirem a não estarem bem nesses dias".

"Não aconselhamos a evitar ou a criar uma conspiração de silêncio. Deve-se permitir vivenciar e partilhar" o momento, salientou Sónia Cunha.

José Carlos Rocha, do Centro de Psicologia do Trauma e do Luto, considera que, para além de se dar "voz às pessoas que desejam manifestar-se", também é importante a homenagem coletiva que se deve fazer àqueles que morreram.

"No dia em que, como sociedade, nos tornarmos indiferentes ao sofrimento, estaremos todos a perder capacidade de evoluir, aprender com as experiências negativas e a desvalorizar os afetos que nos unem e inspiram", sublinhou, considerando que, nas relações mais próximas com os familiares das vítimas, deve-se respeitar as pessoas que não se sentem confortáveis a falar e encontrar "outras estratégias mais subtis para comunicar" o reconhecimento e respeito pelo sofrimento daquela pessoa.

Segundo Sónia Cunha, cada luto é pessoal e, portanto, não obedece a uma cronologia, sendo que cada pessoa vive à sua maneira e pode reagir em diferentes momentos e de diferentes formas.

Apesar de ser um processo que não tem uma conclusão, há, no entanto, um processo de adaptação que se faz ao longo da vida, sendo que o luto complicado começa a ser equacionado "a partir de um ano" após a morte do familiar, disse.

A partir desse momento, é a comunidade quem melhor pode identificar os sintomas de um processo de luto complicado, sublinha, considerando que este estado é diagnosticado quando uma pessoa "não é capaz de recuperar a sua rotina e a sua funcionalidade".

"Há uma incapacidade de se ajustar e de se adaptar a uma nova realidade. Pode ter insónias, incapacidade de descansar, sentimento de vazio ou até a negação da própria perda", refere Sónia Cunha.

Nesse sentido, é "crucial a identificação e a sensibilidade por parte das pessoas que estão à sua volta", explica.

Sónia Cunha chama também a atenção para a forma como este tipo de catástrofes podem alterar a rotina das comunidades, que sofrem um reajuste e uma adaptação.

"Não será a mesma comunidade, será uma comunidade que está em sofrimento, que tem a vivência da dor", realça.

De acordo com José Carlos Rocha, que estudou o caso da tragédia de Entre-os-Rios, há que ter em conta "a multiplicidade de perdas", característica deste tipo de catástrofes.

"É frequente ocorrer mais de uma perda com efeitos cumulativos complexos, que intensificam as experiências emocionais, dificultam os processos de procura de significado e de comunicação das emoções", sublinha.

Para além disso, o "caráter coletivo das catástrofes tornam o seu significado extensível a uma comunidade que ficou também ela chocada e necessita de encontrar significado e repor a sensação de segurança face à devastação aleatória. Este processo envolve-nos a todos", frisa o especialista.

JYGA // SSS

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