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Pedrógão Grande: Duarte Caldeira defende início do período crítico de incêndios em maio

| País
Porto Canal com Lusa

Lisboa, 19 Jun (Lusa) -- O ex-presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) Duarte Caldeira defendeu hoje o alargamento do período crítico de incêndios florestais, considerando que deve começar em maio, uma vez que o atual dispositivo "não corresponde à realidade de hoje".

"O atual dispositivo com quatro estados: alfa, bravo, charlie e delta têm apenas a ver com um modelo meteorológico e climático que já não corresponde à realidade de hoje. O risco potencial em condições meteorológicas de referência estão hoje caraterizados num período muito mais dilatado, que vai de maio a outubro", disse à agência Lusa o investigador da área da proteção civil.

Nesse sentido, o também presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil (CEIPC) e coordenador do curso em Emergência e Proteção Civil da Universidade Nova de Lisboa adiantou que a fase crítica de incêndios florestais deve ser alargada para começar em maio e prolongar-se até outubro.

"O período potencial de risco já não corresponde à fase charlie de julho a setembro, isso era antes. Já não é possível estarmos circunscritos em termos de dispositivo operacional a um modelo meteorológico que está desajustado da realidade" sustentou o também ex-presidente da Escola Nacional de Bombeiros.

Duarte Caldeira defendeu que "é necessário integrar mais ciência no sistema de proteção civil" e reequacionar a Diretiva Operacional Nacional, que inclui os alertas, devido às alterações meteorológicas, em que existem verões mais secos, mais prolongados e com picos de calor cada vez mais intensos, significando que "o potencial de risco da ocorrência de incêndios florestais é cada vez maior".

O investigador afirmou também que os incêndios atuais são idênticos aos que se registam no pico do verão, mas "não têm um dispositivo de resposta correspondente".

Atualmente, o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) está na fase Bravo, que começou a 15 de maio e prolonga-se até 30 de junho, e mobiliza 1.561 equipas compostas por 6.607 operacionais e 1.514 viaturas, além de 32 meios aéreos e 72 postos de vigia da responsabilidade da Guarda Nacional Republicana.

Para a fase mais critica, entre 01 de julho e 30 de setembro, vão estar envolvidos 9.740 operacionais e 2.065 viaturas, apoiados por 48 meios aéreos e 236 postos de vigia.

Sobre o incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande e causou a morte a 62 mortos civis e 62 feridos, Duarte Caldeira não se mostrou surpreendido com o que aconteceu, tendo em conta que as condições para ocorrência deste tipo de fenómeno mantêm-se "quase inalteradas ao longo dos anos".

Considerando que se está na "presença de uma catástrofe", Duarte Caldeira adiantou que deve ser alvo de um estudo "a morte de 47 pessoas numa estrada nacional numa circunstância de incêndio generalizado num determinado espaço territorial".

O ex-presidente da LBP questionou o não-encerramento desta via, que serviu de fuga ao incêndio: "Todas as pessoas que se debruçam sobre este tema não conseguem encontrar explicação para o facto de não estar".

A este respeito, o presidente do CEIPC avançou que uma das vulnerabilidades detetadas ao longo dos anos no dispositivo de resposta a grandes incêndios florestais é "a gestão das vias rodoviárias no perímetro do fogo", defendendo o encerramento de estradas em "tempo útil" para evitar que as pessoas sejam expostas a riscos desnecessários.´

Duarte Caldeira disse igualmente que o incêndio que deflagrou no sábado "é em tudo idêntico" aos fogos que se registaram em 2003, também naquela zona do pinhal interior.

"Em ambas as situações estiveram reunidas condições meteorológicas extremas e também com trovadas secas, frisou.

Duarte Caldeira disse ainda que é necessário "investir na autoproteção das pessoas", que têm que ser "consciencializadas como devem lidar com situações de risco" devido à atual caracterização do território, que é despovoamento, com populações e casas dispersos pelos espaços florestais e aglomerados com cada vez menos gente.

"É preciso repensar o modelo de resposta nestas circunstâncias", concluiu.

CMP // HB

Lusa/fim

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